sexta-feira, 11 de junho de 2010

Uma pausa na brincadeira, falar um pouco sério agora.

Antes, vou transcrever um texto de Jabor, que li ontem e me arrepiei algumas vezes com a história contada.


Vamos beber no passado para esquecer o presente

NÃO AGÜENTO MAIS. Volto para o Antonio's. Vocês me perguntarão: "O que é isso?" Bem o Antonio's era o bar essencial situado no espaço-tempo entre Ipanema e Leblon. O velho Antonio's fechou, mas continua aberto, flutuando dentro de minha cabeça. "Ahh... isso é nostalgia sua..." - dirão os jovens se dissipando em raves
- "era um bar como qualquer outro..."

Não; não era. Havia alguma coisa rara naquele pequeno espaço decorado à inglesa, com uísques bons, ancorado numa esquina da história brasileira.

O Antonio's nasceu e morreu mais ou menos durante a ditadura e viveu cercado de repressão por todos os lados. Parecia uma embaixada onde nos exilávamos toda noite. Uns foram para a embaixada do Chile, outros para a Argélia; eu ia para o Antonio's.

A porta se abre e vejo lá dentro meus amigos todos, um bando de malucos jovens misturados com velhos geniais. Entre os doidos como eu, RUY SOLBERG, CACÁ DIEGUES, GLAUBER, estavam homens como DI CAVANCANTI, SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, RUBEM BRAGA, VINÍCIUS, TOM, LÚCIO RANGEL, MILLÔR, tantos... O Antonio's está em grande noite... O chefe Zelito me recebe, em seu eterno paletó azul, junto com o vice-maître Serafim, que parecia mesmo um anjinho, gordo e pequenino, que aliás já está no céu... Chego ao balcão do Milton , o barman, e faço a piada costumeira: "Milton... tem leite desnatado? Não? Ahh... então me dá um uísque mesmo..."

A meu lado está o cineasta MIGUELZINHO FARIA, meio na fossa. Naquela época, ficar "na fossa", deprimido, era chique; hoje, não é mais comercial - temos que ostentar um sorriso, sem o qual nada valemos. Pergunto ao Miguelzinho intemporal: " Por que o Antonio's foi o bar perfeito?" E ele: "O Antonio's era um bar com 'projeto', porque tínhamos uma utopia revolucionária. O Antonio's era o 'aparelho' da esquerda festiva; tudo tinha um levíssimo sabor político. Em plena repressão, nos achávamos donos do mundo. Nossa 'revolução' era poesia pura. Não visava uma tomada de poder político, coisa chata; era uma tomada de vida, para mudar tudo. Como dizia Rimbaud: Il faut chaner la vie..."
Dito isso, Miguelzinho Faria remergulhou no copo de uísque.

A meu lado materializa-se Roniquito, reformador de costumes, de porre, e agrega: "Não é nada disso; o Antonio's era a delícia da ilusão. Vivíamos na plena bosta da ditadura mas o Antonio's ainda era um bar modernista, na fronteira da pós-modernidade..."
(Reparo que transparentes asas saem de suas costas.) Então, Roniquito vira-se para um escritor ao lado e dispara: "Você já ouviu falar de William Falkner?" o outro: "Claro" E ele: "Então você é um babaca mesmo..."

De repente explode uma briga no fundo. Quase aos tapas Rubem Braga e Di Cavalcanti discutem. Rubem entendia de pintura e, também de porre, sacaneava as mulatas de Di. "Você comeu aquela gorda?" E Di: " Vai pra a p.q.p. seu cronistinha de merda!"
Dali a pouco os dois se uniam para esculhambar um paulista arrivista que se meteu na briga.

Olho o Antonio's em meu delírio. Todos parecem boiar no espaço-tempo. Como ficou remoto o tempo presente: Ciro, Serra, Lula, Elias Maluco, Espírito Santo, "risco Brasil", tudo tão longe...
Milton me dá um uísque, com sua mão iluminada, seu pálido sorriso. Tom Jobim me murmura ao lado: "Pede Old Parr - parece outro líquido..." Vinícius concorda, virando o copo.

De repente, começam a entrar as mulheres... Meu Deus, como eram belas! Noelza, Regina Rosemburgo, Tania Caldas, Duda Cavalcanti, Danuza. Até a Candice Bergen, a grande conquista do macho brasileiro, Tarso de Castro mordendo-lhe a orelha, sem falar inglês... Elas eram mais mitológicas que as mulheres de hoje. Nada de bundões e silicone. Essas musas estavam na transição também entre o ontem e o hoje; eram precursoras, heróicas, matadoras de idiotas machistas, abrindo caminho para as Luanas Piovanis virtuais, que nem sabem que sua liberdade foi conquistada há trinta anos pelas guerreiras do desbunde. Súbito, me toco: foram elas que abriram as portas! Ipanema foi uma revolução feminina. Sim! Por elas, veio a delicadeza, a arte, o prazer. Hoje, estamos sob o signo de machos canalhas e imbecis dominando a vida urbana. Faz-se um clarão na porta e entra Leila Diniz sentenciando: "Porra, puta merda!... Aproveita minha gente, que essa sopa vai acabar!"

Pouco depois, ela morreu no avião que caíu no deserto da Índia e eu senti que era o prenúncio do grande bode que viria, mesmo na pós-ditadura. Hoje entendo o calafrio: acho que a democracia chegou tarde, entre nós; o estrago já estava feito.

Saio do Antonio's e olho o céu lá fora. Está povoado de enormes estrelas rodantes, como aquelas do Van Gogh no céu daquele barzinho iluminado de Arles...

Passa um camburão de sirene aberta e volto assustado ao presente. Entro no meu carro, com medo de ladrão, e paro no sinal. Um menino miserável faz malabarismo com três bolinhas na minha frente. Caio em prantos, sem o Milton para me dar o uísque.

Jabor, Arnaldo, em "Amor é prosa. Sexo é poesia" Editora Objetiva.

Puta que pariu, me arrepiei denovo escrevendo aqui...

Quero agradecer a Jabor, a Luís Fernando Veríssimo, A Fernando Pessoa, aé a Fernando Sabino que me antipatizou; à Chico, a Tom, A Vinícius em quem eu tanto me vejo... A todos eles. A Chico Viana, cujo nome me emocionou agora; que um dia às vésperas do vestibular me disse: "Você tem talento, tem uma narrativa boa..." à Senhora Ezenaide, tia nenê, como eu chamava, que foi minha professora de português quando eu realmente não parava quieto.

Cheguei à conclusão que sucumbi ao externo. e por bobagem. E havia notado que havia mudado e pra pior. Isso me fez ver que a nossa geração está literalmente fodida, a banalização não é mais só do sexo ou do erotismo, todos somos banais, somos objetos somos ter, e não fazer, e muito menos ser. A futilidade tomou conta. A praticidade dos dias de hoje esculhambou com nosso crescimento pessoal e espiritual e nossa autênticidade inexiste.
Eu não tenho noção de minha beleza, não me acho isso tudo que estampam num dos sites de relacionamento que criei para avacalhar com meus amigos. Avacalhar que é uma das coisas que eu mais gosto de fazer, pra ver quem me rodeia com um sorriso natural no rosto. Quero agora ter condição de parar e analisar as situações sempre, não quero outro relacionamento relâmpago sem sentido e sem cumplicidade. Não quero mais esse estigma de "pegador". Sou solteiro, não promíscuo, não estou me envolvendo com ninguém seriamente mas tenho noção que existem sentimentos e emoções em jogo. Eu não sou apenas uma casca.

Autênticidade e originalidade sempre foram carregadas por mim como verdadeiros amuletos e eu perdi isso em meu jeito de ser. Agora só me vem à mente o fato de ter passado, e de eu ter voltado a me comportar como antes. O mais engraçado é que o que causou isso foi meu perfeccionismo. A vontade de ser o melhor. não vou especificar causas (vai sobrar pra mim) mas, passou, cresci mais uma vez. Ainda bem.

Antes de me despedir: um pedido, jogue a porra da futilidade e as crenças sem sentido no lixo.

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