No último dia 30 me ocorreu algo bastante inusitado. Diria até terrível. Sabe aquela mania de "guardar dinheiro debaixo do colchão"? Pois é, eu também tenho. Acontece que meu dinheirinho suado, economizado a regime de pão e água e em dias de "papagaio no arame", como diria minha avó, havia sumido. Como era de se esperar me desesperei. Gritei,. Bufei. Mas não achei o dinheiro... Meu dinheirinho, cuidadosamente colocado em seu lugar, havia sumido. E agora?
Eis que, liderada por mim, se inicia uma investigação digna de polícias internacionais na casa. Todos os moradores indagavam constantemente onde diabos tinha ido parar o dinheiro. Após uma revolução no provável local em que o dinheiro poderia estar. Começa uma parte bastante triste e que me fez pensar. As acusações. Quem poderia ter sido? Afinal, dinheiro não anda. Triste, desgastante e enojante. Condições econômicas... O velho preconceito escondido no fim do guarda-roupa em meio a poeira e a teias de aranha, sabe? Mas com um saquinho de naftalina do lado, um desses que vêm nos tênis. E infelizmente a naftalina funcionou.
Entrei em parafuso! Como é possível acusar os outros? E acusar aqueles que podem menos que eu? É horrível! Pobre do meu estômago. Mas a naftalina conserva e manteve meu preconceito em condições de funcionar. Aceitei que haviam me furtado. E eu tinha suspeitos, juridicamente chamamos isso de indícios. Mas, felizmente eram só suspeitos, eram só indícios. E graças a minha paciência fui impedido de fazer uma grande burrice, de cometer um erro terrível.
Acabou que esqueci minha mania de gostar de meu dinheiro. Afinal, aquilo já havia adquirido uma espécie de valor sentimental. Aceitei que havia perdido uma batalha. "Camarão que dorme a onda leva." Passei a me questionar quanto às condições do País, nossa realidade. Nos montes de pessoas que agora mesmo estão sofrendo sem condições de alimentar a seus filhos e a si mesmos. E eles? Como ficam? Enquanto eu planejo uma viagem para o outro lado do mundo, o que estariam eles planejando? Colocar mais água no feijão para render mais? É desgastante.
Definitivamente eu pensei com calma, observei a situação com outros olhos. Me vi num futuro não tão distante (assim espero) como um Juíz. Vi que não é um trabalho tão fácil e glamouroso como aparenta e percebi o porque do concurso ser tão difícil. Nem todos julgariam com imparcialidade, nem todos seriam capazes de compaixão e de punibilidade aos que merecem e assim precisam. Revi minha condição e percebi que vou seguindo pelo caminho certo.
Renovei meus conceitos, me senti aliviado, afinal havia refletido acima de uma experiência ruim e havia crescido como pessoa. Planejava até um discurso para os que se compadeceram de mim e um texto mais cheio de utopias revolucionárias (Che vive!). Mas, eis que como uma peça pregada pelo destino, achei meu dinheiro, num momento de despreocupação total percebi que o envelope em que eu o guardava havia escorregado pela gaveta. Engraçado, não? Matei meu preconceito, percebi que para crescer tenho que pensar e repensar e preciso exercitar ainda mais minha calma e minha paciência. E, finalmente, vou abrir uma conta bancária.
Rafael Andrade
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